1ª Regressão


Ao descer os últimos degraus das escadas chego a um longo corredor onde do meu lado esquerdo desde logo me apercebo da porta aberta. A nítida imagem de uma baía verdejante salta à vista. A sensação primeira é a de estar a vislumbrar a imagem desde a janela de um avião, que sobrevoa a região. Desço, e à medida que vou descendo, a paisagem vai revelando a presença de uma nau acostada ao largo, de um bote grande de remos e de um punhado de homens transportando troncos de madeira ao longo do areal. Mas a principal impressão vem da nau, onde sinto uma presença feminina forte. Dou por mim a comandar o transporte dos troncos para a nau, da qual me advém um sentimento de intensa atracção pela mulher que me aguarda. Pouco depois partimos rumo ao mar alto.

A chegada ao entardecer faz-se com relativa calma e tranquilidade, acompanhada com a sensação de retorno a lugar já por mim conhecido. Aguardo no cais a descida da mulher que me acompanha para de seguida jantarmos nesta simples e pacífica cidade oriental. O anoitecer convida a um passeio junto à margem, logo após o jantar.

Recuo no tempo até à infância dessa vida, à procura das minhas origens, e a imagem de uma das ruas mais escuras e estreitas da cidade revelou a minha casa, a minha família, o meu ambiente familiar. A intensa carga de negatividade que sinto presente nas noites que recordo, fez-me crescer um sentimento de rejeição perante tudo e todos, pois o meu pai todas as noites chegava bêbado a casa e batia em mim e na minha mãe. A não-aceitação deste fado, levou-me a batalhar na vida por uma bem melhor.

Assim, cedo me tornei num mercador respeitado que frequentava as festas na corte. E, foi numa dessas festas que conheci a mulher que viria a ser a minha companheira. Um primeiro olhar e a beleza e doçura que ela emanava era proporcional à segurança que eu lhe transmitia. Estávamos os dois de desagrado com a festa em si, e iniciámos o processo de conhecimento mútuo com uma conversa que durou toda a noite e que resultaria na fuga dela de casa dos pais para ir viver e viajar comigo.

Um dia resolvemos fixar-nos algures em terras do oriente, onde acabámos por nos casar ter filhos e adoptar costumes e um estilo de vida bastante diferente daquele com o qual tínhamos sido criados. Meditação, massagens, yoga…, uma vida bastante simples.

Nunca mais nos interessámos por saber da terra natal e dos nossos pais. No entanto, um vazio profundo apoderou-se do meu coração até ao meu último dia de vida. Um vazio de angústia, por não ter tido a possibilidade de amar e ser amado, perdoar e ser perdoado pelo meu pai e mãe.

Bom, e é esse um dos Karmas que trago para liquidar nesta vida. Espero consegui-lo.

1 comentário:

Unknown disse...

Que história linda...
As viagens ao passado para além de nos darem a conhecer o que de menos bom nos aconteceu e nos influencia hoje, ajuda-nos a recordar o que de bom existe dentro de nós desde sempre e que faz parte da nossa energia original - o Amor por nós próprios e o Amor Incondicional.
Da minha experiência sei que limpar um karma é muito complexo, mas a chave para essa limpeza passa sempre pelo perdão a nós próprios e pela aceitação de que tudo aconteceu como teve de acontecer para sermos o que somos hoje, sem culpa e sem arrependimento, apenas com a tristeza de não termos conseguido fazer tudo de forma diferente.
Vais conseguir amigo! Não é fácil mas é um processo muito gratificante.
Podes contar com o meu apoio nessa tua caminhada.
Bem hajas!
Carmen (cpfgirassol)